terra à vista
aos passos em fuga,
os que esconde, para fingir não ver a hora de partir,
ela tenta evitar a despedida, o inadiável, narrando os dias com um sorriso
enchendo de sol o bom dia
e os passos de valsa que imagino a sua volta
quase ouvindo o som do ukelele.
dois minutos em um banco
uma pequena garota, oriental como você, passou, toda de branco,
dos tênis ao boné, cantando a si mesma uma música
enquanto pedalava em uma bicicleta
você acaba de sair pro trabalho, cobrir minha folga
nos despedimos e sua mãe me ligou, te procurando
eu já estou com saudades
mensagem de desculpas ao falecido pai
no seu aniversário de 65 anos
tivemos coragem de comprar para você uma camisa
que qualquer palhaço de circo usaria como uniforme
mas bem confortável e te dissemos
que era moderna, a última moda, que você estava lindo
e que todas as coroas iam se apaixonar
você nunca soube o porquê de tanto riso
porque você usava aquele presente de coração todos os dias
e você já estava velho, carente e cego.
IgG e IgM
as marcas de vacina
nunca passam
elas sempre voltam quando você olha pros braços nus
ou conta pra um amigo que está feliz de novo.
estar feliz nunca é problema
mas aquela cicatriz que foi feita na carne
com dor e agulha
volta com os beijos
e com os exames dizendo que isso
é amor em miniatura.
gurb song
traduzido da música de Migala
eu queria que alguém entrasse em minha vida como um pássaro que entra voando na cozinha e começa a quebrar as coisas, batendo em portas e janelas, deixando caos e destruição. é por isso que eu aceitei seus beijos como se aceita folhetos de propaganda ao andar na rua. eu sabia, não me pergunte como ou por que, que nós iríamos dividir até nossa pasta de dente.
nós fomos nos conhecendo ao acariciar nossas cicatrizes, tomando cuidado para não chegar muito perto para não saber demais. queríamos que a felicidade fosse como um virus que alcança cada lugar de um corpo doente.
eu tranformei minha casa em um colchão d’água e seus seios em castelos de areia. ela me deu suas metáforas, suas garrafas de gim e sua coleção de selos do norte da África. de noite, nós conversávamos sobre sonhos, de costas um para o outro, e nós sempre, sempre concordávamos. os lençóis se tornaram tão parecidos com nossa pele que nós paramos de ir trabalhar.
o amor se tornou um homem forte e grande conosco, terrívelmente prestativo, um bom mentiroso, com grandes olhos e lábios vermelhos. ela me fez me sentir novo em folha. eu vi ela se foder, perder contato, nós ouvimos Nick Drake em seu gravador de fita e ela me disse que era uma escritora. eu li seu livro em duas horas e meia e chorei durante toda a história enquanto assistia Bambi.
ela me disse que quando eu pensasse que ela tinha me amado tudo que poderia amar, ela ia me amar um pouquinho mais. meu ego e cinismo estavam bem afiados e nós ficávamos dizendo “o que você faria se eu morresse” ou “e se eu tiver aids” ou “voce não gosta de The Smiths” ou “vamos transar agora”.
nós deixamos nossas impressões digitais por todo meu quarto, café da manhã estava automaticamente pronto, e se fôssemos trazê-lo ao quarto com um carrinho, não usávamos as mãos. nós competíamos pra ver quem tinha os melhores orgasmos, as melhores viagens, as maiores ressacas. e se ela ficasse grávida, decidimos que seria culpa de deus.
o mundo era nossa redoma. viver era viver.
mas aí ela teve que voltar para Londres, para ver seu namorado e sua família e seu cachorro chamado Gus. e sem ela, está tudo uma bagunça. cortei meu cabelo e pintei minhas unhas de preto. eu abro minha coleção de fotos e nosso passado é eterno, e agora eu sei como retirar cada pedaço de minha história em fatias cada vez mais finas até que só me reste ela.
me sinto um merda, não importa com quem eu fique ou quão bom eu possa ser com meus novos pássaros. mas é por isso que vivemos, não é? por novos pássaros que nos projetem em um fio, desde o subterrâneo até o ar, até o mundo.
whenigoforwardsdrawkcaboguoy
quando tudo está dando certo
vem uma coisa e dá errada
e outra. e outra. e outra.
outras. e outras. e outras.
e todas, todas são exatamente
a mesma coisa, em infinito loop
vai ser assim a vida inteira
não há estrela cadente e
nem fitinha de santo que mude o desejo,
nem o poder do amor. nem suas consequências.
nem sua estupidez, nem sua futilidade,
nem sua fragilidade. nem sua fragilidade,
nem sua estupidez, nem sua futilidade.
nem o poder do amor. nem suas consequências.
nem fitinha de santo que mude o desejo,
não há estrela cadente e
vai ser assim a vida inteira
a mesma coisa, em infinito loop
e todas, todas são exatamente
outras. e outras. e outras.
sou um homem sincero
é só ficar dois dias e
nasce o sol ao lado das duas montanhas
numa versão secreta e cinzenta de
daniela
passei um mês longe daqui,
longe da noite sem lençóis, só cobertas nas camas detrás
das persianas cinzas do quarto vazio
é só assim que posso te querer,
daniela
e esse nascer do sol
que te nomeia
com chuva e sem notícias
previsões de te querer, me diz
Não sei o que a vida seria sem ti
se não forem traidoras as luzes do teu amor.
mas as luzes sempre enganam e
o dia nasceu lindo;
eu, inesperadamente acordado,
sussurrei seu nome sonâmbulo,
daniela
e ninguém sabe, nem eu,
por que nos meus lábios repousa esse nome
se não é ele que chama
você.
da série: melhores sequências musicais de álbums
capítulo de hoje: Green Day – Dookie.
tracks selecionadas: 1-13.

antes de começar, digo que é raro acontecer isso, de um álbum ter quase todas as tracks boas em sequência, ainda mais quando é quase o álbum inteiro. mas não é nem um pouco raro dizer que, sem sombra de dúvida, esse é um dos cds que mais caracterizaram o rock dos anos 90, ganhando ainda mais notoriedade na fase popular que o punk rock enfrentou na reformulação desta década.
também queria dizer que é óbvio que isso é um ponto de vista pessoal sobre o disco. não sou profissional da área, mas pretendo ser, e sempre gostei de ficar fazendo listas mentais sobre sequências musicais que me agradam. e se tem uma sequência gravada a ferro e fogo na minha mente, é esta, do dookie.
sem mais rodeios, vamos começar.
Track 1: Burnout
vou dizer logo, acho o instrumental do green day, na época em que eram homens, simplesmente fantástico: a facilidade com que Tre Cool lidera a batida e faz viradas completamente não possíveis na ótica da física moderna; a levada de Mike Durnt no baixo (que detalharei melhor em tracks a seguir) que, na minha visão, perde, e por muito pouco, para o Flea, do Red Hot Chilli Peppers; e a guitarra babaca e desajeitada de Billie Joe, que, apesar de não ter muita técnica, é compensada pela raiz punk roqueira e pelos vocais peculiares.
bem, a track, então. ela é perfeita para iniciar o disco: tem a guitarra característica da banda, fugas de baixo ao estilo Durnt e viradas sensacionais de bateria. não é uma das melhores tracks, mas sem dúvida é uma das melhores aberturas de álbuns do rock dos anos 90.
Track 2: Having a Blast
a raiva peculiar da juventude é o que motiva essa música. “do you ever want to lead a long trail of destruction and mow down any bullshit that confronts you?” não é uma das melhores do cd, mas é muito boa, de qualquer maneira. qualquer um que já foi adolescente, já passou por essa fase e, bem, eu era adolescente quando comecei a ouvir green day, então essa fica pra saudade.
Track 3: Chump
essa é uma das mais subestimadas do cd, e uma das melhores. de fato, prefiro ela à mais famosa, que será detalhada mais à frente. a guitarra é ótima, a letra é maravilhosa e a track diz tanto e tão bem sobre a raiva infundada, mais adulta e mais justificada que a de Having a Blast. só tem uma coisa que estraga essa música, na minha opinião: o fato de ela servir de ponte para a que vem logo a seguir, que se chama…
Track 4: Longview
um dos melhores baixos EVER. quando perguntado sobre como ele compôs esse arranjo para o baixo, Durnt disse: eu tava muito chapado, saiu naturalmente, o problema foi lembrar depois. essa música diz muito sobre a banda: o destaque da voz e composição de Bilie Joe e a genialidade de Durnt e Tre. simplesmente maravilhosa. e o melhor, ela some para dar lugar a uma outra música sensacional.
Track 5: Welcome to Paradise
essa é a história de um jovem que sai de casa para trabalhar, acha tudo uma merda no começo e depois acaba se integrando à merda. um conto sobre a depreciação e medo que a cidade inflige aos idealistas. a letra é uma das melhores do green day, mas é ligeiramente apagada pelo instrumental, que é muito bom, mas que não faz jus ao conteúdo da mensagem. nota para a bateria, absurda, e o baixo muito bom na parte do solo.
Track 6: Pulling Teeth
essa marca o início das músicas engraçadinhas em cds do grupo. é isso que ela é: engraçadinha. é boa, mas não há muito o que dizer: é boa, e só.
Track 7: Basket Case
aí está, a clássica, a famosa, a música que levou a banda às alturas. Basket Case é, provavelmente, uma das músicas mais celebradas do rock dos anos 90; lembrando que foi a década do nirvana, do pearl jam, de todas essas bandas de sucesso global. mas se querem que eu seja sincero, não acho ela tão grande coisa assim. é uma das melhores, claro, mas não é destaque, não é expoente, é somente genial como todas as outras. aliás, prefiro muito mais a que vem logo a seguir.
Track 8: She
ela é clichê, ela é babaca, mas é uma das que mais me toca em todo o cd. o instrumental realmente acompanha a letra, ambas simples e sensíveis, ao modo green day, é claro. é outra daquelas que não se tem muito a dizer: só que é muito, muito boa, destaque para Tre moendo na batera.
Track 9: Sassafras Roots
subestimada. ok, eu sei, a letra é repetitiva, mas o baixo é sensacional, e, bem, eu gosto da letra também. você pode ler sem ou com os “wasting your time”, mas acho que fica mais rico se ficar no on/off aleatório. “well, i’m a waste like you, with nothing else to do, may i waste your time too?”
Track 10: When I Come Around
essa é das que fica no meu coraçãozinho. ouvindo hoje, não é grande coisa, mas ela sempre significou muito pra mim. e nem preciso dizer sobre o baixo e a bateria, né. quem tiver tempo, procura o clipe no youtube, é bem divertidinho.
Track 11: Coming Clean
mesmo sendo muito adolescente, é incrível como eles conseguem ser bem mais apurados e exatos do que o Blink 182, por exemplo. essa música é perfeita para uma banda adolescente, e mesmo assim consegue ser muito boa e condizente com a realidade dessa época. “i found out what it takes to be a man. mom and dad will never understand what’s happaning to me.”
Track 12: Emenius Sleepus
essa é a terceira daquelas que acho subestimadas. é a única composição de Durnt, muito mais profunda que as do Billie, mas acho que o instrumental deixou um pouco a desejar, não pela qualidade, mas pela atmosfera causada. enfim, continuo achando boa, e ninguém lembra dela. uma pena.
Track 13: In the End
ela fecha o ciclo de músicas boas com um final meio anti-climático. é boa, sim, mas é só isso. só inclui por achar que está acima da média, e por odiar totalmente a última música do álbum. fiz isso pra deixar ela com raivinha, por ser a única sem review.
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é isso: um álbum maravilhoso, quase impecável. um dos favoritos. uma pena pra quem não vai conseguir perceber o quanto é bom por não ter crescido ouvindo isso. não que seja necessário ter lembranças boas ligadas ao disco, mas pelo fato de ter ouvido antigamente poder te despir de preconceitos e te permitir fazer uma análise decente. espero que tenham gostado da resenha, pretendo fazer mais daqui em diante.
elegia
nunca fui de viajar
nem mesmo vir ao Rio de Janeiro.
não posso culpar o jeito da minha família
que sempre foi muito programada,
Ou niterói, ou são pedro da aldeia.
não há culpa a ser dada a alguém.
tambem faz pouco tempo que passei
a frequentar essa cidade:
cheguei com os tiros,
com a guerra civil,
com o conflito de amores.
cheguei jornalista
de metrô e camisa social pra fora da calça
com o suor na testa, na careca,
e só pensando, só sonhando
com o trabalho e as notícias do dia seguinte.
pra sempre interrompido pelo
Next stop, Botafogo
e o
É só pra eu poder tomar um cafezinho.
sempre ouvi falar do porto, do arpoador,
da estação da carioca e dos
cinemas.
na minha cidade, tinha cinema.
meu primeiro filme foi Rei Leão,
do qual só lembro de uma imagem
desfocada no breu.
nem sei se isso é minha memória ou imaginação.
depois, não havia mais, a época dos blockbusters.
já era tarde quando voltaram
caros aos 12 ou 13 anos.
o Rio sempre foi cinema pra mim.
e poesia, e música,
e quando você tem isso tudo
somando as capas dos jornais,
é que você começa a pensar como eu penso,
que tudo que importa e a imagem, é o sentimento,
não a realidade.
é porque nada poderia viver
ao sonho que é o Rio de Drummond, Vinícius e Chico.
vim te conhecer, Rio,
cheguei com os tiros,
com a guerra civil,
com o conflito de amores.
foi amor à primeira vista.
pra quem ainda não sabe, consegui um estágio faz duas semanas e meia. esse é o principal motivo por eu não estar mais aqui, ou por eu não ter mais escrito poemas. não há tempo, não há sentimento além do stress. isso porque nessas duas semanas, não tive aulas na faculdade, que recomeçam essa semana.
a partir de amanhã vou tentar me dedicar um pouco pra cá de novo. mesmo trabalhando fins de semana e feriados, não tendo tempo nem pra almoçar, tenho coisas pra postar e pra contar. e se tem algo que eu descobri nos livros de autoajuda empreendedora (e que, por sinal, é verdade), é que tempo a gente cria.
ah, e eu adoro ser coitadinho. e isso pegou mal.