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gurb song

janeiro 28, 2010

traduzido da música de Migala

eu queria que alguém entrasse em minha vida como um pássaro que entra voando na cozinha e começa a quebrar as coisas, batendo em portas e janelas, deixando caos e destruição. é por isso que eu aceitei seus beijos como se aceita folhetos de propaganda ao andar na rua. eu sabia, não me pergunte como ou por que, que nós iríamos dividir até nossa pasta de dente.
nós fomos nos conhecendo ao acariciar nossas cicatrizes, tomando cuidado para não chegar muito perto para não saber demais. queríamos que a felicidade fosse como um virus que alcança cada lugar de um corpo doente.
eu tranformei minha casa em um colchão d’água e seus seios em castelos de areia. ela me deu suas metáforas, suas garrafas de gim e sua coleção de selos do norte da África. de noite, nós conversávamos sobre sonhos, de costas um para o outro, e nós sempre, sempre concordávamos. os lençóis se tornaram tão parecidos com nossa pele que nós paramos de ir trabalhar.
o amor se tornou um homem forte e grande conosco, terrívelmente prestativo, um bom mentiroso, com grandes olhos e lábios vermelhos. ela me fez me sentir novo em folha. eu vi ela se foder, perder contato, nós ouvimos Nick Drake em seu gravador de fita e ela me disse que era uma escritora. eu li seu livro em duas horas e meia e chorei durante toda a história enquanto assistia Bambi.

ela me disse que quando eu pensasse que ela tinha me amado tudo que poderia amar, ela ia me amar um pouquinho mais. meu ego e cinismo estavam bem afiados e nós ficávamos dizendo “o que você faria se eu morresse” ou “e se eu tiver aids” ou “voce não gosta de The Smiths” ou “vamos transar agora”.
nós deixamos nossas impressões digitais por todo meu quarto, café da manhã estava automaticamente pronto, e se fôssemos trazê-lo ao quarto com um carrinho, não usávamos as mãos. nós competíamos pra ver quem tinha os melhores orgasmos, as melhores viagens, as maiores ressacas. e se ela ficasse grávida, decidimos que seria culpa de deus.

o mundo era nossa redoma. viver era viver.

mas aí ela teve que voltar para Londres, para ver seu namorado e sua família e seu cachorro chamado Gus. e sem ela, está tudo uma bagunça. cortei meu cabelo e pintei minhas unhas de preto. eu abro minha coleção de fotos e nosso passado é eterno, e agora eu sei como retirar cada pedaço de minha história em fatias cada vez mais finas até que só me reste ela.
me sinto um merda, não importa com quem eu fique ou quão bom eu possa ser com meus novos pássaros. mas é por isso que vivemos, não é? por novos pássaros que nos projetem em um fio, desde o subterrâneo até o ar, até o mundo.

2 Comentários
  1. não pinte suas unhas de preto. :~

  2. que bonito, lu.

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